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Era da imagem requer reflexão sobre o que registrar e o armazenamento das fotografias

22 de dezembro de 2016

Para que a memória não se perca, pessoas devem dedicar atenção ao acervo pessoal

A frase “uma imagem vale mais que mil palavras” atribuída a Confúcio (551 a.C.-479 a.C.), pensador e filósofo chinês, foi cunhada em uma época em que o registro por meio de gravuras ou pinturas era algo no mínimo demorado. Depois da criação da fotografia, no século XIX, a captura de imagens do mundo real começou a fazer parte da vida das pessoas, passando por diversos estágios até chegar ao fantástico universo das câmeras e os dispositivos tecnológicos que fazem imagens digitais. No atual contexto, de selfies e fotografias em que absolutamente tudo é registrado, será que cabe um instante para a reflexão?

Quem nos conduz nesse processo é a publicitária e fotógrafa Deborah Nunes, que desenvolveu uma pesquisa sobre fotografia brasileira durante seu mestrado em Comunicação e Cultura (UFRJ) e ministra disciplinas como Fotografia Digital, Fotopublicidade e Fotojornalismo nos cursos de Comunicação Social da Universidade Veiga de Almeida (UVA). Ela fala sobre a importância da fotografia para a sociedade ao longo dos séculos, da memória familiar que os registros guaram e dá dicas muito importantes para salvaguardar os acervos pessoais em caso de possíveis danos nos equipamentos eletrônicos.

Depois que surgiram os meios digitais que fazem registros fotográficos, observa-se uma explosão de imagens em todos os lugares, principalmente nas redes sociais. A relação das pessoas em relação à fotografia mudou, é fato. Quais são as perdas e benefícios decorrentes dos dispositivos digitais (câmeras, celulares, tablets)?

Deborah Nunes - ​Desde o seu surgimento, até os dias atuais, a fotografia promoveu algumas revoluções na sociedade em relação à produção e reprodução de imagens. Ao avaliarmos as alterações da relação do homem com a imagem desde o surgimento da fotografia no século XIX, podemos traçar uma trajetória das funções sociais que a fotografia adquire, assim como as necessidades que as reproduções fotográficas inspiram. Quando os sócios Niepce e Daguerre, após distintas pesquisas e experimentos com câmeras obscuras (aparelho ótico que permitia a reprodução de imagens em seu interior a partir da passagem da luz em um pequeno orifício de uma caixa preta), conseguem, finalmente, fixar a imagem em uma superficie, observamos uma série de mudanças na sociedade da época a partir dessa nova descoberta. A primeira grande revolução, a qual, Benjamin denominou como a “perda da áurea” da obra de arte, consiste na constatação de que com a nova técnica tudo poderia ser reproduzido, inclusive obras de arte, fato que em si projetava uma popularização da imagem e de imagens de obras não acessíveis ao público em geral. Dessa forma a democratização da obra de arte e a popularização de imagens era um caminho inevitável. O fato de que a fotografia é naturalmente um processo de fixação e reprodução de imagens altera, desde o seu surgimento, a função da arte, especialmente a pintura, principal meio de reprodução de imagens anterior ao surgimento da imagem fotográfica, para Benjamin a arte a partir desse momento poderia assumir um posicionamento político além do estético. O caráter aurático da obra de arte, estimulado pela sociedade “pré-fotografica”, consistia em mitificar as obras a partir do seu caráter único, irreprodutível. Para apreciar uma Mona Lisa de Michelangelo era necessário ir até a obra e diante dela verificar sua autenticidade. Já a reprodução do mesmo quadro pode levar a imagem do artista a diversos países e observadores distintos. Uma outra função que a fotografia adquire, libertando a pintura, era a de retratar as pessoas da sociedade. O daguerreótipo, primeiro processo de reprodução de imagens comercializado por Daguerre, divulgou retratos da sociedade do século XIX, e fixou as primeiras paisagens em placas de metal. Um novo mundo surge reproduzido nos processos fotográficos que daí evoluiram culminando com o filme fotográfico na já antiga câmera fotografica analógica. Segundo Benjamin, grandes revoluções tecnológicas são concomitantes a alterações da percepção, e a fotografia, alterou definitivamente a forma como o homem do seculo XIX percebia a realidade e a representava. Algumas novas necessidades surgem a partir da elaboração da técnica, como por exemplo, a febre do “Carte de Visite” nos anos 1850/1870. Podemos considerar esse momento como uma primeira popularização de retratos no mundo, quando a reprodução dos retratados em formatos 6x9cm adquire além de uma função reprodutiva uma função de comunicação e troca, assim como de afirmação dos papéis sociais, os quais os retratados reproduziam e divulgavam. Os pequenos retratos circulavam a Europa sendo enviados como presentes para entes queridos e desejados por todos. Esse momento pode ser considerado como o precursor do selfie contemporâneo, apesar de ser realizado por processos distintos a necessidade de se representar e se mostrar para o mundo nasce dessa possibilidade que a fotografia disponibiliza de auto reprodução em imagens.

A revolução da imagem digital alterou ainda mais nossa relação com a fotografia. O fato de hoje termos acessíveis distintos dispositivos de produção e reprodução de imagens, facilitou a exacerbada criação e veiculação de imagens no mundo. Em qualquer ambiente social nos deparamos com cenas que agora nos parecem cotidianas, como por exemplo, uma pessoa ou todos no ambiente entretidos olhando o celular. Outra cena comum é a quantidade de celulares que sobem ao iniciar-se um espetáculo, uma cena já clássica da era digital. A necessidade de tudo reproduzir em imagens a partir da facilidade que os dispositivos nos apresentam parece que tornou todo mundo louco por imagens, ou seriam as imagens loucas por tudo representar?

A questão que mais espanta é a constante necessidade de tudo duplicar. Ao ponto que devemos nos perguntar se as pessoas estão deixando de viver o momento em prol de registrar a vivência do momento. Fato que beira uma patologia contemporânea, e que, em alguns casos está mesmo sendo considerada como tal, como por exemplo, no caso do uso viciado da internet. Com relação a fotografia e a alteração no modo de realização da imagem a partir do surgimento do digital, constatamos a exacerbada produção de imagens em comparação com os tempos da imagem analógica. Um exercício interessante é pensar em como eram produzidas imagens antes da câmera digital surgir. O fotógrafo ou amador compravam um filme de no máximo 36 poses. Este deveria ser exposto com muita parcimônia e com a devida atenção, tanto com relação ao momento do click, quanto ao custo que derivaria de revelação e da perda de poses por exposição incorreta. Ora o tempo de realização era outro, podemos dizer que o tempo de reprodução de imagens com câmeras analógicas é um tempo mais esgarçado, o qual proporcionava uma relação distinta com o fazer fotográfico e com a divulgação das imagens realizadas.

Hoje estamos acelerados e o tempo de realização e divulgação de imagens é também frenético. As facilidades que a reprodução digital nos trouxe é inegável. Se pensarmos na facilidade com que tudo realmente foi reproduzido e encontra-se acessível com facilidade na internet, não há dúvidas de que é um momento revolucionário em relação a quantidade de informação e de imagens que temos disponíveis. Contudo a constante necessidade de tudo fotografar e postar, assim como a quantidade cada vez mais absurda de imagens que são produzidas, são questões que devemos procurar refletir e reconfigurar. Não estaríamos subtraindo de nossas vidas a vivência em prol do registro e da veiculação de imagens?

Os álbuns, tão valorizados algumas décadas atrás, quase não são mais feitos, exceto em ocasiões muito especiais, como formatura, casamento e 15 anos. A não impressão das fotografias pode ser uma perda para a memória das famílias?

Deborah Nunes – Sim, esta é uma questão bastante preocupante, visto que a forma como as pessoas lidam com as imagens digitais é ainda inexperiente e impulsiva. Na transição da imagem analógica para a digital o público em geral não foi educado para a necessidade de se pensar no armazenamento e na reprodução de imagens digitais. É tudo feito intuitivamente, sem uma conscientização sobre as possíveis perdas e a necessidade de precaução quanto aos backups digitais. Nós, profissionais da fotografia, sabemos que se você tem um backup em um HD externo você pode não ter nada, se você tem dois backups você pode ter algo. Isto significa que os arquivos digitais, são sucetíveis a perdas e danos que podem ser irreparáveis. A perda de um computador e a ausência de um backup pode acabar com a memória fotográfica que uma família produziu nos últimos 10 anos. Dessa forma, é necessário pensar na questão do armazenamento cuidadoso, bem como na impressão das imagens que são importantes para a memória de uma família,  aquelas imagens que seria muito triste perder.

Como as pessoas imprimem cada vez menos as imagens, o armazenamento é feito em computadores, pen drives ou até mesmo na memória dos celulares. Isso é seguro? Quais são as dicas para não ter uma surpresa desagradável caso o computador queime ou celular seja roubado?

Deborah Nunes – Bem, a dica principal é que é necessário que seja feito pelo menos um backup dos arquivos que estão no computador em outra mídia. Mas o ideal é que seja feito pelo menos um backup físico (ou seja, em um HD externo) e outro em um ambiente virtual, na nuvem. Para estar completamente seguro, o ideal é ter no mínimo dois backups em HDs externos e um na nuvem. Sendo que para ter um grau ainda maior de segurança, o recomendável é que um dos HDs esteja em um local diferente e que possa garantir a recuperação dos arquivos em caso de acidentes ainda mais graves, como um incêndio, por exemplo.

Qual a dica para um casal que tem mais de 10 mil imagens do primeiro ano de vida do filho? Realmente precisa de tudo isso?

Deborah Nunes – A primeira dica é passe mais tempo com seu filho do que fotografando seu filho. Definitivamente, não é necessário e provavelmente até perturbador para a criança. Há um ditado que diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Acho que podemos adaptar para uma boa imagem vale mais que dez mil imagens.

Percebe-se uma banalização das imagens: de comida, da malhação, do look do dia, do passeio no shopping, além de milhares de selfies. As pessoas deveriam refletir um pouco antes de apertar o botão?

Deborah Nunes – Sim. Essa banalização é justamente fruto da atual possibilidade tecnológica de tudo registrar, além do fato de que vivemos em uma sociedade na qual há uma valorização da imagem mais do que do conteúdo, digamos assim. Percebemos uma necessidade constante de autoreprodução de uma felicidade que não é real, vemos muitas fotos de pessoas mais felizes do que o normal. A imagem que as pessoas querem passar de si mesmas é de uma felicidade constante e inabalada, não há mal nenhum em ser feliz ou em fotografar um passeio e um bom momento. Contudo, a vida não é feita apenas de momentos bons e tampouco somos personagens de nossa própria ‘estória’. Quando a reprodução de tudo que é vivido torna-se constante e incontrolada é que em vez de viver os momentos felizes, acabamos por perdê-los na inevitabilidade de tudo fotografar.