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Administração e a dicotomia entre prática e teoria

José Francisco Nogueira*

O senso comum consagrou que administrar é algo prático e isso, sob um determinado ângulo da realidade administrativa, está correto. O problema é que se a prática for vista como única referência, em detrimento de uma base estruturada de conceitos, não há como definir, documentar, acompanhar, orientar e validar tais práticas. De fato, administrar tem inúmeros ângulos e a prática é apenas um deles.

Paradoxalmente, alinhar o entendimento desses diversos ângulos e alinhar suas respectivas terminologias é a própria base da administração.

A falta de um entendimento comum nas diversas atividades da administração organizacional é uma das causas de desgastes, prejuízos e insucesso. A comunicação organizacional, por exemplo, é frequentemente considerada como uma das habilidades gerenciais mais deficientes, inclusive por aqueles que supervalorizam a prática na administração.[I]

Alias, esse é um exemplo significativo de falta de uma linguagem comum: o que é administração? Conjunto de técnicas para suportar o controle, acompanhamento e execução de atividades administrativas com ênfase no fazer e na especialização? Ou, por outro lado, um processo de gestão incluindo variáveis que vão desde a estruturação de processos até o envolvimento no relacionamento pessoal, numa abordagem generalista?

Ao tentar responder essa questão (o que é administração?), surgem outras questões como, por exemplo, especialista é oposto de generalista? Administrar é diferente de gerenciar? Gestão é diferente de supervisão? Por sua vez, cada resposta implicará na investigação de outros conceitos e assim, sucessivamente.

Porém, numa realidade de pressão diária sob a argumentação freqüente do senso comum quanto à ênfase da prática e, por conseqüência, de falta de motivação para mudar, certamente fica mais fácil deixar esse esforço de conceituação fora das prioridades organizacionais.

Há uma expressão inglesa bastante utilizada que pode ser útil nessa reflexão sobre a importância da uniformidade de entendimento: are we on the same page? Numa tradução livre seria algo como temos o mesmo entendimento da parte do tema que está sendo discutida e estamos no mesmo ponto da discussão?
Sem um bom alinhamento conceitual, sem conhecer o todo e as partes do tema, sem definir o ponto exato da discussão, fica praticamente impossível termos um entendimento mínimo sobre qualquer assunto.

Por isso, o que ocorre frequentemente nesses casos é a decisão unilateral, ou seja, decisão sem negociação. Tanto aqueles que decidem quanto aqueles que se subordinam a essas decisões sabem dos riscos de tal sequência.

Um exemplo concreto: em 1882, o magnata das ferrovias norte-americanas William Henry Vanderbilt tomou uma típica decisão de negócio: descontinuar um dos serviços de sua companhia. Para entender as razões dessa decisão, o repórter Clarence Dresser[II] procurou o magnata. Dresser encontrou Vanderbilt almoçando em seu vagão exclusivo e tentou obter sua entrevista rapidamente. O magnata sugeriu um adiamento da entrevista, mas o repórter insistiu afirmando que o público não poderia esperar. A resposta de Vanderbild continua surpreendendo há mais de um século: “Que se dane o público”.

Houve uma repercussão negativa generalizada. O capitalista explicou em uma entrevista posterior que a sua resposta tinha sido um desabafo em função da pressão do repórter em um momento inadequado. Por outro lado, ele destacou o fato de que uma ferrovia não é construída originalmente para beneficiar o público: “Ela funciona para compensar de forma justa os seus investidores”. Em uma outra versão da entrevista[III] Vanderbilt teria afirmado que se o público quer manter um serviço, deve demonstrar esse interesse usando e pagando tal serviço. Caso contrário, teria afirmado, o serviço torna-se deficitário e não tem justificava comercial para ser mantido.

A racionalização liberal do magnata está bastante clara em qualquer das versões conhecidas da entrevista. A prioridade dele como capitalista era a geração do melhor lucro possível pelo emprego do capital. Assim, se um serviço não é procurado pelo cliente, no volume necessário para cobrir custos e pagar os investidores, não faz sentido mantê-lo.

O problema de Vanderbilt foi fazer uma afirmação que agredia o público consumidor, mesmo sendo esse consumidor absolutamente favorável à livre iniciativa. Entre outros aspectos, o público não aceitou a expressão que excluía o direito dos clientes de opinar sobre a continuidade da prestação de um serviço. As tentativas de explicações posteriores demonstram isso.

Resumindo: Vanderbilt quis dizer uma coisa, mas pressionado disse outra. Depois tentou dar uma explicação mais convincente (com conceitos reconhecidos), mas já era tarde. Ele foi prático, mas provavelmente em demasia.

Outro ponto importante a considerar sobre as linguagens e intenções contidas nos conceitos administrativos é o fato de que tais expressões são afetadas por todas as mudanças dos paradigmas[IV] usados pelas ciências e bases teóricas auxiliares da Administração como, por exemplo, Psicologia, Antropologia, Biologia, Sociologia, Política, Economia e tantas outras.

Isso significa que os conceitos usados pela Administração devem estar sob constante revisão. Não basta apenas conhecer um conceito, mas desafiá-lo constantemente.
Diante disso tudo, algumas questões estão à espera de respostas urgentes como, por exemplo: a quem cabe esse trabalho científico de discutir e propor revisão do conjunto conceitual do processo da gestão dos diferentes tipos de organização? Como reverter as conseqüências da ênfase na prática, típicas do senso comum?





[i] Professor, pesquisador e palestrante sobre gestão organizacional. Doutor em Filosofia com ênfase em Ética (UGF), Mestre em Gestão Organizacional (FGV), Pós-graduado em Administração pelo COPPEAD, Marketing pela PUC RIO e Ciências Políticas pelo Instituto Bennett.
Linhas prioritárias de pesquisa: fundamentos de gestão organizacional e responsabilidade organizacional, com foco em organizações desenvolvedoras de serviços.

´I] Para uma observação mais detalhada vale ver a pesquisa de benchmarking de 2008 desenvolvida pelo PMI no Brasil: www.pmi.org.br.

´II] Prestava serviço para o jornal Chicago Daily News.

´III] Essa entrevista foi apresentada por Samuel Barton (que afirma ter presenciado a entrevista original de Vanderbilt) a William A. Croffut, biógrafo de Vanderbilt. Essa biografia de Croffut foi publicada um ano após a morte de Vanderbilt ocorrida em 1886.

´IV] Um conceito de relevância científica é um paradigma, ou seja, um modelo a ser seguido, até que outro o substitua com vantagens comprovadas. Nesse sentido, vale a pena consultar o clássico de Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas, editado no Brasil pela Perspectiva em 1978.




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